domingo, 12 de janeiro de 2014

Judeus chineses

Judeus Chineses
por D. H. Smith

                

No ano de 1912, o lugar do que fora a sinagoga judaica de K’ai-feng-fu, na província de Honan, foi vendido à Igreja Episcopal canadiana, fechando-se assim um dos mais fascinantes capítulos da história judaica. Durante quase oitocentos anos, os judeus de K’ai-feng-fu tinham orado na sua sinagoga que, por meio de fogo, de inundações, de água e de revoltas, havia sido destruída e reconstruída muitas vezes.
Separados dos seus correligionários de outras terras, estes judeus tinham mantido o seu testemunho distinto, os seus costumes e a sua lei. Tinham-se tornado conhecidos dos seus vizinhos como T’iao-chin-chiao, religião dos que tiram os nervos e tendões da carne. Só ficaram os restos de sete grupos do que fora outrora uma comunidade rica e florescente. Não possuíam chefe. O último rabi morrera há muito e a sinagoga ficara em ruína. Os catálogos da Lei haviam sido destruídos e a oração de Sabat terminara. Pouco os distinguia dos seus vizinhos, salvo o fato de não comerem carne de porco, se recusarem a adorar os ídolos e a queimar incenso aos antepassados. (23)

Faltam provas para dizer ao certo quando os primeiros judeus se fixaram na China. Segundo a sua própria tradição, os seus antepassados entraram na China durante a dinastia Han, 206 antes de Cristo-225 AD. Bem pode ser que mercadores judeus tivessem chegado até à China nesse período primitivo, mas se assim foi, não deixaram registro. São mencionados judeus num relato de um saque de Cantão pelo general rebelde Huang Ch’ao no ano 879 AD. (24)

Foi na dinastia Sung, no ano 1163, que o imperador, Hsiao Tsung, deu permissão aos judeus de construírem uma sinagoga em K’ai-feng. Em 1446 AD, quando a sinagoga tinha quase trezentos anos de existência, foi destruída pelas cheias, e os preciosos catálogos das suas Escrituras Sagradas desapareceram. Nessa ocasião uma colônia judaica em Ningpo, na província de Chekiang, tinha também a sua sinagoga, e em 1462 AD um judeu dessa cidade trouxe uma cópia completa da Lei para K’ai-feng. Em 1490 AD, a sinagoga foi reconstruída. Nas primeiras décadas do século XVII, a sinagoga de K’ai-feng foi outra vez destruída, agora por um incêndio, e todos os livros arderam. Uma geração mais tarde, em 1642 AD, a sinagoga foi novamente destruída num terrível cerco da cidade. Vinte e seis dos preciosos livros da sinagoga foram destruídos, mas em 1654 AD a sinagoga reconstruiu-se mais uma vez e copiaram-se os catálogos da Lei e outros livros. (25)

Foi o famoso missionário jesuíta, Matteo Ricci, que, no começo do século XVII, revelou ao Ocidente a existência de uma colônia judaica em K’ai-feng. Ao ouvir falar de estrangeiros que adoravam o Verdadeiro Deus e não eram muçulmanos, um deles viajou até Pequim e visitou Ricci, revelando-lhe que havia dez ou doze clãs de judeus a viver em K’ai-feng e que tinham recentemente restaurado a sua sinagoga ao custo de dez mil coroas. Ele também informou Ricci de que várias famílias judaicas viviam em Hangchow, a antiga capital da dinastia Sung, e que também possuíam a sua sinagoga. Ao ser-lhe mostrada uma Bíblia hebraica, ele reconheceu a escrita mas não soube ler. Disse que o seu irmão era perito em hebraico. Foram feitas várias tentativas, sem sucesso, para converter esses judeus ao cristianismo. Entre os anos de 1712 e 1723 dois escolares jesuítas versados em hebreu fizeram visitas freqüentes à sinagoga de K’ai-feng, esboçando um desenho da sinagoga e copiando as inscrições nas paredes. Com a expulsão dos missionários do interior da China todos os contatos cessaram, até que o Dr. W. A. P. Martin os visitou em 1866. (26) O Dr. Martin procurou primeiramente informações numa das seis mesquitas da cidade. O mufti denunciou os judeus como descrentes e informou Martin de que a sinagoga havia sido completamente demolida. Ficou um padrão com uma inscrição a comemorar a inauguração da sinagoga em 1183 e a sua subseqüente reconstrução. O Dr. Martin contatou com seis representantes das restantes famílias judaicas que confessaram que a sua santa e bela sinagoga havia atingido um tal estado de ruína que eles próprios, por suas mãos, a demoliram. Estavam empobrecidos, tinham perdido todo o conhecimento de hebreu, acabado com o culto ritual, e não seguiam já as tradições dos seus antigos. Um tornara-se padre budista, outros tinham abraçado o islão.
                

Nos seus bons tempos, a sinagoga, conforme descrita nas cartas dos padres jesuítas Domenge e Gaubil, era um complexo magnificente de pátios e edifícios. Só a sinagoga tinha sessenta pés por quarenta, coberta com um elegante telhado. Ao centro estava “O Assento de Moisés”, uma cadeira magnífica e elevada, com almofada bordada, onde se colocava o livro da Lei. Ao pé, o nome do imperador em letras douradas, sobremontado pelo Shema em letras hebraicas de oiro, e por trás um arco triplo com a inscrição hebraica: “Bendito seja o Senhor para sempre. O Senhor é o Deus dos deuses e o Senhor, um grande Deus, forte e terrível”. Numa vasta mesa seis candeeiros em fila, e ao pé uma bacia. Finalmente, havia o Beth-El, o T’ien T’ang, ou Casa do Céu. Neste lugar. ninguém, exceto o rabi, entrava durante a hora da oração. Em mesas separadas estavam treze rolos da Lei cada qual encerrado numa tenda de cortinas de seda. Na parede do extremo oeste, os dez mandamentos em letra doirada, e também um gabinete contendo livros e manuscritos. A congregação ficava separada do Beth-El por uma balaustrada.

Tiravam-se os sapatos à entrada da sinagoga. Uma cobertura azul era usada na cabeça, para os distinguir dos muçulmanos que usavam o branco. Ao ler a Lei, o ministro tapava o rosto com um véu de gaze transparente e usava uma faixa vermelha que lhe cobria o ombro direito e atava sob o braço esquerdo. As orações eram cantadas. Não havia instrumentos musicais. A congregação não usava talith durante a cerimônia.

Os judeus de K’ai-feng observavam a circuncisão, a Páscoa, a Festa dos Tabernáculos, a Festa da Lei, e, talvez, o Dia da Expiação, porque se dizia que, em certo dia, jejuavam e choravam juntos na sinagoga. Guardavam o Sabat rigorosamente, nunca tentando fazer prosélitos e recusando-se a casar com gentios. Usavam os livros sagrados para deitar sortes. Nunca pronunciavam o nome de Deus mas usavam a palavra “Adonai” e ao escrever em chinês interpretavam a palavra Deus por T’ien. Acreditavam na unidade de Deus, no céu e no inferno, na ressurreição dos mortos, no dia do juízo, e numa hierarquia de anjos. Eram severos contra a idolatria. Rezavam de face para o ocidente, para Jerusalém. Que uma pequena colônia de judeus no coração da China, isolada do resto do mundo judaico, persistisse assim na sua religião, através de guerras, calamidades, mudanças de dinastias, durante quase oitocentos anos, é um dos fatos mais notáveis da história da religião da China. Prova não só a força das crenças religiosas e das tradições, mas também a tolerância dos chineses quanto a religião, uma vez que esta não ameaçasse nem a autoridade do estado nem a boa ordem da sociedade.

Notas
23. Ver China: Provincial Atlas and Geography, Xangai, 1934, p. 20; E. W. Geil, Eighteen Capitals of China, Londres, 1911, pp. 356-7.
24. C. P. Fitzgerald, China, ed. revista, 1950, p. 306; R. Grousset, Rise and Splendour of the Chinese Empire, Londres, 1952, p. 173.
25. James Finn, The Jews in China, Londres, 1843, p. 57.
26. O relato da visita do Dr. Martin a K’ai Feng foi lido ao Ramo da China do Norte da Sociedade Real Asiática em 29 de Março de 1866 e foi subseqüentemente publicado no J. R. A. S. O Dr. Martin incluiu, mais tarde, o relato nos seus Han lin Papers, Londres, 1880.

Fonte : http://chinaimperial.blogspot.com.br/2008/04/judeus-chineses-por-d-h-smith.html

Para ler mais : http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/china/home.html

Abraços

2 comentários:

  1. Caro Desatracado,
    Entendo que qualquer pessoa que segue a torá é um psicopata da mais brutal periculosidade!!!
    E isso serve também para os de olhos puxados!!
    É o poder da bastardização, da hibridação!!
    Abraço

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  2. Será que todos eles conhecem e concordam com a Torá na sua totalidade ?

    Será que temos tantos cegos assim ?

    Existem muitos rabinos que são contra o estado de Israel e temos também os Nature Karta.

    Abraços

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"Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário."
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"Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador."
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